quarta-feira, novembro 18, 2009

Cotidiano

Escrito por Naiara às quarta-feira, novembro 18, 2009
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(Esse texto eu havia publicado em meu antigo blog, e por falta de inspiração ou por necessidade de publicar algo resolvi reviver este post que eu gosto bastante)

Ela terminou de fumar seu cigarro, apagou-o no cinzeiro de vidro que ficava ao lado de sua cama, esperou alguns minutos até se impulsionar para fora da cama. Já estava arrumada, precisava apenas escovar seus dentes e tirar aquele gosto da boca, passar um gloss e soltar seus cabelos longos que viviam presos por um hashi.

Após suas sucessivas averiguadas no espelho para ver se estava bem, aquele corpo magro, sem curvas muito definidas, resultado de uma imaturidade refletida na própria aparecia, ela pegou sua bolsa e foi ao seu destino: o trabalho.

Era recepcionista, aquele emprego onde acima de tudo o sorriso era sempre o mais importante dos requisitos. Havia de sorrir para todos, está sempre à disposição para atender, nunca dizer não. Sorrir para os pais, para as mães, para as crianças chatas que sempre estavam a fim de perguntar alguma coisa que não havia uma resposta, estar de bem com a vida mesmo que seu útero estivesse gritando de dor em uma cólica menstrual, lá estava ela, sempre pronta para servir, acima de qualquer coisa.
Chegou ao trabalho, aquele clima quente de uma cidade onde o verão era a única estação que conhecia realmente, mesmo estando em meio a maio, prendeu seus longos cabelos mais uma vez, guardou sua bolsa em um armário, sentou-se em frente ao computador, cumprimentou algumas das pessoas que passaram pela recepção, e foi fazer o seu trabalho.

Havia dias em que o serviço era tranqüilo, dava para conversar uma hora ou outra com algumas pessoas, andar um pouco pelo ambiente para não se entediar com a cara do computador, e ficar tomando um café de tempos em tempos. Ela não costumava fumar no ambiente de trabalho, o que causava uma aflição em suas mãos, com necessidade tanto da nicotina, como do objeto em seus dedos, era comum vê-la com um lápis, caneta, simulando seu fumo.

Era mais um dia normal de trabalho, sem muitos imprevistos, no Maximo alguns que logo seriam resolvidos com seu patrão. Era para ser mais um dia que assim que desse seu horário de fim do expediente, ela pegaria sua bolsa no armário, ascenderia seu cigarro e caminharia até sua casa, que não era muito longe dali. E foi um dia assim, mas ela não conseguiu ir para casa com a mesma sutileza de sempre.

Estava voltando do bebedouro com seu copo cheio de água bem gelada para aguentar o clima, quando ele entrou pela porta principal. Usava um uniforme de escola, azul e branco como são a maioria naquela cidade, tinha o cabelo preto, cortado curto, mas não o suficiente para ser chamado de careca. Tinha o estereótipo que a faria olhar mesmo para ele. Era mais alto que ela, bem mais alto, magro, não devia passar dos 60 kg, tinha no rosto uma barba mal feita, dessas que os adolescentes costumam esquecer de fazer por preguiça ou por querer mostrar mesmo. Usava um óculos que só de observar de longe dava para ver que pouco enxergaria sem os mesmos. Ele chegou, notou a presença dela, cumprimento-a sem olhar para cima, e se sentou no sofá, aguardando sua hora marcada.

Apenas mais um homem que chamaria a atenção dela pelo estereótipo, nada que a alarmaria, afinal, já era experiente em casos de amor passageiros por pessoas que mal conhecia. Mesmo assim ficou a observá-lo sobre o computador, desviando sempre que ele pudesse perceber que estava sendo vigiado. Ele estava a ler uma revista de algum assunto qualquer da atualidade, e de vez em quando parava para olhar as horas. Outras pessoas chegaram, mas ela esqueceu de prestar a atenção em quem elas eram, ou no que estavam fazendo, observá-lo ali, sentadinho esperando sua hora era mais divertido que falar sobre a nova crise mundial com alguém que não tinha mais nada para fazer.

Deu 17:00h, e ele entrou para a sala, e ficou por cerca de uma hora. O tempo parecia muito longo, e os papeis iam se acumulando em sua mesa, ela deveria ter tomado umas 4 xícaras de café enquanto isso, mais alguns copos d’água, mas nada do garoto sair da sala. O desejo de ascender seu cigarro que estava na bolsa era muito, mas não iria desobedecer tão facilmente sua própria regra, já estava mais do que na hora de abrir mão do vicio.

17:10...
17:25...
17:33...
17:40...

De vez em quando o telefone tocava, atendia, anotava os recados, seu trabalho tinha que ser feito, e ele haveria de sair daquela sala.

_ Elise !?
_ Oi! _ Era seu chefe chamando-a numa dessas ligações.
_ Faça-me um favor, traga os documentos da contabilidade que deixei em sua mesa hoje de manha. Estou aqui na sala ao lado.
_ Ok, estou indo. _ Ela não queria ir, já era 17:45 e provavelmente ele sairia daqui a pouco, mas não deixaria seus trabalho esperando por mais um romance breve. Pegou os papeis desejados e foi a sala mencionada.

Ouviu todas as recomendações a se fazer sobre o referido material, e já era 17:55 quando voltou para seu lugar de origem. Já era tarde, ele já havia saído, e em seu antigo lugar no sofá, onde a pouco lia uma revista qualquer, estava uma mulher de cabelos dourados, e sorriso doce que parecia transparecer uma doçura incomum. Ela sorriu de volta, afinal era este o seu trabalho, sorrir, e ser gentil com todos, mesmo que ela mesmo estivesse despedaçada.

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